Hálitose
Fonte: JAO - Jornal de Assessoria e Prestação de Serviços ao Odontologista
Avaliação quantitativa da capacidade de remoção dos resíduos do dorso da língua através do uso de dois limpadores. Contribuição para a redução da halitose.
A língua representa um dos principais nichos microbianos da cavidade bucal e constitui-se de área de retenções de detritos, o que contribui para o desenvolvimento da halitose. Os hábitos de higienização bucal devem incluir recursos mecânicos diretamente aplicados sobre a superfície dorsal da língua para, desta maneira, garantir uma adequada limpeza. Foram avaliados dois dispositivos indicados para a limpeza do dorso de língua. Quarenta e quatro acadêmicos do Curso de Odongologia da EFOA, de ambos os sexos, participaram da pesquisa que os submeteu a dois momentos de limpeza de língua, ora com um limpador de língua (Kolbe), ora com a escova dental. Os resíduos linguais removidos foram quantificados em balança de precisão e os dados submetidos a análise de variância e teste estatístico. A comparação dos resultados permitiu considerar que a maior adaptação à anatomia lingual do limpador de língua Kolbe, bem como a conscientização da existência de um dispositivo específico para limpeza dessa região, garantiu maior remoção dos resíduos linguais. Ao nível de 1% o teste de Tukey mostrou resultados favoráveis e estatisticamente significantes ao limpador de língua tipo Kolbe.
A saúde, vista como o estado do invidíduo cujas funções orgânicas, físicas e mentais se acham em situação normal, abrange também todos os aspectos envolvidos com o equilíbrio das estruturas do sistema estomatognático. O reflexo de uma boa saúde bucal "exala através do bom hálito", mais seguramente quando se têm estabelecidos bons hábitos de higienização das estruturas da cavidade oral, incluindo o acesso direto no controle dos nichos bacterianos e sítios de retenção de placa biofilme, alimentos e outros resíduos.
É provável que a maioria dos adultos sofra de mau hálito, pelo menos ocasionalmente. Desde que a halitose vem da cavidade bucal, o dentista deve ser o primeiro profissional a atuar no controle desse odor. Ointenta e cinco por centro dos pacientes com mau hálito têm a cavidade bucal como origem da halitose. (ROSENBERG, 1996).
O hálito é o ar expirado dos pulmões, podendo tanto ser pelas fossas nasais como pela boca. O normal é o hálito humano ser inodoro ou ligeiramente perceptível pelos circunstantes, podendo apresentar variações desde o agradável até o odor pútrido.
A halitose é definida como sendo as anormalidades do hálito (MAREANO & SOUZA, 1986). Essa alteração tem sido relatada por milhares de anos. Na Bíblia o livro dos Gênesis menciona o "ladanum", uma resina derivada da árvore Pistacia lentiscus que teria sido usada para refrescar o odor, por milhares de anos, em países do Mediterrâneo.
Considerando que a cavidade bucal é uma das portas de saída para o ar expirado dos pulmões, é de fundamental importância a observação de que a presença de doenças gengivais, periodontoses, doenças dos tecidos duros, bem como nichos bacterianos naturais, podem gerar condições de instalação de novos odores que interfeririam com o hálito expirado.
A localização desses nichos, em especial no dorso da língua, e a presença de bactérias anaeróbias nas fissuras linguais desempenham um papel essencial na formação do mau cheiro (DE BOEVER, 1995). A identificação de compostos voláteis de enxofre, de bactérias BANA-positivas (benzoil-DL-arginina-2-naftalamida) na língua permite associar tais condições com a halitose.
Várias indicações podem sugerir que o problema se origina na boca. O caminho simples para distinguir a etiologia oral daquela não-oral é comparar o cheiro vindo da boca do paciente com o que sai do nariz, ou seja, discernir se o mesmo procede de focos de odores situados na boca, nas vias respiratórias superiores, na faringe e vias respiratórias inferiores, ou se é de origem sistêmica ou metabólica. Existem relatos significantes envolvendo a halitose de forma mais acentuada com odores originados no dorso da língua (MAREANO & SOUZA, 1986; DE BOEVER et al., 1995; ROSENBERG, 1996). Se o odor é principalmente da boca, uma origem oral pode ser concluída (GRAPP, 1933). ROSENBERG (1996) afirma que mau odor tipicamente originado na boca com frequência provém do dorso da língua contrariamente ao pensamento comum que atribui sua origem ao trato gastrointestinal. Porém, para vários autores, a origem nesse local é considerada extremamente rara (HAWXHURST, 1873; PRINZ, 1930; GRAPP, 1933; ROSENBERB, 1995).
A halitose pode ser produzida por dois mecanismos.
O primeiro, pela eliminação de substâncias odoríficas, contidas nas vias respiratórias e na boca, pela passagem do hálito normal e o segundo, pela eliminação do hálito já viciado durante o fenômeno da hematose - trocas gasosas fisiológicas (MAREANO & SOUZA, 1986).
O envolvimento da halitose com bactérias gram-negativas e anaeróbias tem sido salientado como um dos principais fatores contribuídores para a alteração do hálito. Estudos in vitro têm demonstrando que bactérias anaeróbias Gram-negativas são capazes de produzir compostos voláteis de enxofre a partir de produtos do sangue (PERSSON et al., 1989). Em particular o Treponema denticola, Porphyromonas gingivalis, Prevotella intermedia, Bacteroides forsythus e Fusobacterium podem produzir significantes quantidades de sulfeto de hidrogênio e metilmercaptana a partir de proteínas séricas, cisteína e metionima (PERSSON et al., 1990; CLAESSON et al., 1990). Consequentemente, LOESCHE et al. (1995) sugeriram que esses agentes periodontais podem desempenhar um maior papel na patogênese da halitose. Três destes microrganismos, Treponema denticola, Porphyromonas gingivalis e Bacteroides forsythus produzem uma tripsina semelhante à enzima detectada pela hidrólise do peptídeo sintético benzoyl-DL-arginine-2-napthylamide (BANA). Esses microrganismos anaeróbicos e de caráter proteolítico envolvidos com a doença periodontal também foram identificados na superfície da língua (DE BOEVER et al., 1995).
Se a flora anaeróbia na superfície da língua é a principal fonte de enxofre volátil compondo a boca, então o mau cheiro bucal mostra decréscimo com mudanças no conteúdo bacteriano do dorso da língua.
DE BOEVER et al. (1995) realizaram um estudo no qual investigaram o papel das bactérias orais e as características das superfícies linguais no desenvolvimento da halitose. Para isto, os autores utilizaram associações entre mensuração de odor, níveis de compostos voláteis do enxofre, parâmetros periodontais, características da superfície da língua, testes de atividade enzimática, presença de microorganismos na língua e nos dentes e parâmetros bacteriológicos em 16 participantes com queixa de mau hálito. Os resultados permitiram concluir que a putrefação microbiana na língua é um fator importante no desenvolvimento da halitose; compostos voláteis do enxofre, bactérias BANA-positivas na língua, o revestimento lingual e profundas fissuras na língua estão todos associados com o mau cheiro oral e, por esta razão, mostram ser causas importantes no processo da halitose.
Segundo ROSENBERG (1990), além dos sítios intra-orais mais comumente produtores da halitose (língua, áreas interdental e subgengival, outros podem ser incluídos, como falhas nas restaurações, locais de impacação alimentar e abscessos. Afirma também que as cáries usualmente não são malcheirosas, a menos que retenham grande quantidade de alimento.
ROSENBERG & LEIB (1995) citam as dentaduras como outra importante causa de mau cheiro oral, principalmente se são usadas durante a noite. A saliva também afeta o odor, tanto que, num indivíduo, os níveis de mau cheiro durante o dia são inversamente relacionados ao fluxo salivar (TONZETICH, 1977; ROSENBERG & McCULLOCH, 1992). Quando o fluxo salivar é baixo (por exemplo, durante o sono ou após jejum), o mau cheiro aumenta. Contrariamente, a mastigação aumenta o fluxo salivar, com concomitante limpeza da cavidade oral e redução do mau hálito (TONZETICH, 1977; ROSENBERG, 1990; ROSENBERG et al., 1991; ROSENBERG & McCULLOCH, 1992; BOSY et al., 1994).
TONZETICH (1977) & ROSENBERG (1990) afirmam que o melhor caminho para tratamento da halitose é motivar o paciente para boa prática de higiene oral, e que uma limpeza suave mas efetiva da língua deve tornar-se diária de higiene oral (ROSENBERG, 1996). Para isto, o paciente deve ser lembrado que a porção posterior da língua, apesar de ser pouco acessível, é a que usualmente cheira pior (PRINZ, 1930; GRAPP, 1933; ROSENBERG e LEIB, 1995). Não obstante, a escova dental comum usada na escovação da língua pode provocar reações de vômito. Para minimizar estes reflexos vomitivos a indústria de produtos odontológicos tem desenvolvido uma variedade de raspadores (limpadores) de língua.
Vários relatos mostram uma diversidade no tratamento da halitose a partir de manipulações da cavidade bucal, mas todos exaltando a importância da associação dos recursos rotineiros de higienizaçãp bucal.
RICHTER (1994) cita, para causas bucais da halitose, a aplicação de sprays anti-sépticos nas gengivas, língua e paredes bucais. Complementos diários com gargarejos antimicrobianos para o combate do enxofre e limpezas periódicas feitas por profissionais garantem melhor controle do hálito saudável. Medidas preventivas adotadas pelos pacientes como uso frequente de fio dental, ingestão de água como primeira refeição do dia e a raspagem diária da língua com uma colher, bem como uma dieta alimentar livre de alho, cebola e outros alimentos odoríferos são também recomendados por RICHTER.
Diversos instrumentos foram idealizados para permitir uma adequada remoção dos resíduos do dorso de língua nos processos de higienização bucal. A escova dental vem sendo frequentemente recomendada pelos dentistas como dispositivo para a limpeza do dorso da língua (ROSENBERG, 1996). Colheres plásticas e raspadores especificamente idealizados são apresentados na literatura como bons recursos de higienização lingual.
Diante da importância da halitose nas relações sociais geradoras de martírios para todos aqueles que, por força das circunstâncias, são compelidos a conviver com os infelizes e desafortunados portadores do mau cheiro, e considerando os contatos que os dentistas teriam que suportar durante o atendimento odontológico rotineiro, julgamos oportuna a realização de um estudo comparativo que evidenciasse a maior capacidade de remoção dos resíduos aderidos no dorso da língua, contribuindo, desta forma, para a redução do componente bacteriano envolvido com a halitose.
O objetivo foi avaliar quantitativamente a capacidade de remoção dos resíduos do dorso da língua, utilizando-se de dois dispositivos:
a. Raspador plástico, adaptado para o dorso de língua, novo e seco;
b. Escova dental de cerdas macias e cabeça pequena, nova e seca.
Material e Métodos
Foram avaliados 100 estudantes do Curso de Odontologia da Escola de Fármacia e Odontologia de Alfenas, MG, regularmente matriculados no 6º período, de ambos os sexos e com média de idade de 21,6 anos. Os objetivos da pesquisa foram expôstos e 53 acadêmicos voluntariam-se a participar da pesquisa.
A seguir, através de questionários, foram identificadas as relações familiares dos voluntários com a área da saúde, as experiências vividas com procedimentos odontológicos, com o objetivo de estabelecer parâmetros de conhecimentos e hábitos de higiene bucal. Um questionamento com relação aos tipos de alimentos mais frequentemente ingeridos também foi aplicado para o estabelecimento dos padrões alimentares.
Uma vez padronizado o nível de conhecimento e prática da higienização bucal, a partir da identificação dos hábitos comuns aos voluntários da pesquisa, foram selecionados 44 alunos para a continuação do trabalho.
Foram considerados duas fases experimentais e um intervalo de duas semanas foi reservado entre as limpezas linguais (ora limpeza realizada com o raspador - limpador Kolbe de plástico, em forma de "V", preconizado por Ana Cristina Kolbe; ora com a escova dental - escova Utra macia infantil, Ultra Ind. Com. Imp.) (Figuras 1 e 2). Metade dos voluntários fizeram a primeira limpeza com a escova dental e a outra metade com os raspador (primeira fase).
Na segunda fase da limpeza lingual, foram invertidos os dispositivos usados.
Na primeira fase, 22 voluntários submeteram-se à auto-limpeza da superficie dorsal da língusa com o raspador de língua (Figura 3) e os outros 22 voluntários submeteram-se à auto-limpeza da face dorsal da língua com a escova dental (escova dental convencional, com cerdas extra-macias e em mesmo plano) (Figura 4), utilizando-se a técnica descrita abaixo. Todos os voluntários foram orientados para, durante 2 semanas, procederem sua higienização bucal da mesma forma que naturalmente as exerciam. Após esse tempo, durante a segunda fase do experimento, os voluntários submeteram-se novamente à auto-limpeza do dorso de língua, agora utilizando o dispositivo ainda não usado, ou seja, os 22 primeiros voluntários, que na primeira fase utilizaram o raspador de língua, usaram a escova dental. Os voluntários restantes, então, utlizaram do raspador lingual para a higienização, possibilitando desta forma 2 grupos experimentais: Grupo 1, constituído de 44 voluntários, usuários do raspador para limpeza da superfície dorsal da língua, e Grupo 2, com os mesmos 44 voluntários usuários da escova detal.
Para a quantificação da remoção do resíduo do dorso de língua de cada voluntário, foram definidas as técnicas de manuseio do dispositivo de higiene bucal.



